Indignidade X Arbitrariedades

Fotografia do acervo do Blog Caminhos de Santidade.
Reprodução proibida.
Atualmente diante dos incontáveis desastres e horrores o pavor impede a ação e o agir humano e faz calar, ao invés de falar aos que não tem voz.
O genocídio de Rwanda, em 94 do século 20, não tão distante, apesar das explicações que font la part belle à responsabilidade das instâncias internacionais, a pergunta feita por um desastre tamanho provocado pelo homem com a ajuda de uma rudimentar arma é  exatamente a da dignidade humana. Separar os bons homens dos maus. Exterminar sistematicamente os últimos. Não estaria ai uma aplicação da teoria eugenista, segundo a qual somente os melhores tem direito a vida?
Percebe-se que a retórica que transforma o mau corpo em inseto, em cancrelato, caiu como uma luva. Esses corpos indesejáveis, transformados pelo imaginário e por uma retórica político-social e mediática, foram largados ao abandono, ao ar livre. É aqui, precisamente, que se pode falar de privação da dignidade humana, na medida em que esses corpos, como não eram mais humanos, foram deixados até apodrecer ou alimentar os cães. Quando o ser humano não tem mais consideração pelo próximo, quando ele não se contenta apenas em matá-lo, mais ainda, ignora a existência do morto, quando ele não consegue mais reconhecê-lo como tal, pode-se exigir dos cães tal reconhecimento?
Até que ponto o diálogo, a palavra pode humanizar a vida quando o horror não tem nome, quando a vida está por um fio para si e para outrem?
A palavra, ligeira e confiante, transforma a clausura e as duras condições da vida real em um sonho encantado, metamorfoseia o medo da vida, onipresente, em esperança.
O homem ainda é um homem quando ele se dá o direito de falar a todos que ama. Enfrentado a todas as leis e todas as regras de conduta autorizada, indo além de seus próprios limites.
Assim, é permitido, para que o indizível não seja esquecido, de se filmar, de contar histórias e de rir depois de Auschwitz, Rwanda, Líbia, Noruega, Acre, Anapu e de todos os horrores que não param de arrancar a cada ser humano e, por conseguinte, da Humanidade inteira, a sua dignidade. Aqui, entretanto, a palavra não política, se assim expressa-se, tem relação com um viver em segredo, com um manter-se às escondidas ou quase, sempre abordando o mais próximo e a si mesmo, a título de informação, palavra de resistência e não de processo, como para dizer: ESTOU VIVO!
No tempo presente poderia citar muitos exemplos de privação da dignidade humana que não se trata apenas do homem transformável em coisas ou em animal, mas sim daquele cujo corpo é colocado à margem por sua orientação religiosa, sexual, suas aptidões físicas, sua força, sua beleza, sua orientação política e partidária, por sua condição social... Eis a confrontação que alcança além de uma tipologia de tropos e chega ao cerne do fazer, do ser em toda sua potencialidade.

Os significados, quando se tratam de um verdadeiro axioma, são múltiplos e, infinitos, parafraseando Octávio Paz. Há homens e homens mas, Humanidade apenas uma por maiores que sejam os signos e sentidos que não são castelos de ilusões.

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