Santidade, uma conquista pessoal

Luiz Santinácio*



Perfeito e Santo são a mesma coisa?

Na maneira comum de se expressar parece que sim mas na análise dos conceitos compreende-se que existem diferenças entre ambos.
Perfeição, perfeito, do Latim perficere, perfectus exprime a ideia de alguma coisa concluída, de algo que não falta nada em relação à sua natureza ou estado. A ave é perfeita quando tem asas para poder voar. De forma etimológica, em Hebraico, santo significa separado. Atribuí-se somente a Deus para indicar a sua transcendência. Também, por participação, as casas e pessoas para significar que são retiradas do uso comum e reservadas para o serviço de Deus. Assim se constitui, com peculiaridade, o Povo de Israel, os Sacerdotes, o Templo(Cf. Lv 10, 3).



Vós sereis para mim um reino de sacerdotes
e uma nação santa!
(Ex 19, 6)

Conhecer, da parte do Senhor, explica o exegeta, equivale a escolher e predestinar: "Deveis ser perfeitos" (Cf. Mt5, 48), diz o Senhor Jesus e repete o Apóstolo: "Deveis ser santos" (Cf. 1Ts 4, 3). Consagrar, da parte do Senhor, indica uma separação para o ministério profético do que uma santificação interior (Cf. Jr 1, 4-5).

Deveis ser perfeitos como o Pai é perfeito.
(Mt 5, 48)

Perfeição significa integridade e tal ação está em conformidade com os princípios morais, notando-se que a perfeição absoluta pertence ao Criador. As criaturas possuem a perfeição relativa, conforme exige-se por sua natureza. Ainda, uma perfeição essencial quando nada falta do que é exigido: perfeição particular quando se manifesta só uma qualidade.
A perfeição é colocada no caminho como ponto de referência tornando-se meta a ser alcançada, uma meta sempre mais longe, por ser infinita a perfeição do Pai.


Cristo descobre ao homem a sua altíssima vocação (GS, n. 22a)



O organismo espiritual é um organismo vivo e dinâmico igual ao organismo físico que tende a desenvolver-se, aperfeiçoar-se até a sua plenitude (Cf. Mt 13, 31-33).
Santidade, no sentido teologal e espiritual-moral é a ausência do pecado e a total dedicação ao Criador. É o estado de graça habitual; é a condição da nova criatura (Cf. 2Cor 5, 17; Gl 6, 15) que participa da própria vida divina. Fala-se de santidade objetiva como dom divino e da santidade subjetiva como conquista pessoal.
Em Paulo, entende-se santidade como dom, fruto do batismo, sacramento renovador (Cf. 1Cor 1, 1; Fl 1, 1; Cl 1, 2) aos chamados à santidade (Cf. Rm 1, 7). Diz-se que aquele dom do Alto pode perder-se e, de fato, apresentando a santidade cristã como progresso, um caminho (Cf. CIC, n. 2015). Aumentando a graça aumenta também a santidade. As virtudes teologais e os dons do Espírito Santo agem sobre a atividade, de forma que, pode-se fazer cada vez mais obras de vida eterna.


O que fazer?


Deve-se evitar a tibieza, as faltas voluntárias e os próprios pecados veniais voluntários para não deixar esfriar o fervor e cair na mediocridade. Daí que um pecador recém-convertido pode iniciar com grande entusiasmo e amor o caminho da perfeição cristã. Foi a explicação de Jesus ao fariseu que o havia convidado para comer em sua casa onde aquela pecadora anônima demonstrou amor (Cf. Lc 7, 47). E advertia com severidade aos profissionais da religião: os publicanos e as prostitutas estão vos precedendo no Reino de Deus (Mt 21, 31).

Medir a santidade quando se participa da própria santidade de Deus

Há quem diga sim. Ao grau de graça adquirido na terra corresponde ao grau que a alma obterá no céu. A graça aumenta com o exercício das obras meritórias pela intensidade do amor.
Posto o princípio que a Una e Indivisa Trindade é fonte de santidade observa-se como a criatura participa da própria santidade de Deus. Deus Pai, invisível e inacessível (Cf. 1Tm 6, 16) revela-se a Humanidade como o Santo por excelência, antes três vezes Santo (Cf. Is 6, 3), quer dizer Santíssimo.
No Antigo Testamento é frequente, sobretudo, na obra do Servo Sofredor, a expressão Pai santo (Cf. Jo 17, 11). E o Pai mostra a sua santidade não só nas grandes teofanias (Cf. Ex 19) mas também quando castiga o pecado do seu Povo. Longe de ser uma santidade esmagadora, a santidade divina é contagiante: Deus abençoa quem d'Ele se aproxima (Cf. 2Sm 6, 7-11) e está sempre pronto a perdoar (Cf. Ex 32, 14) e encorajar (Cf. Os 11, 9).


Preenchendo a distância que o separa das criaturas, Deus escolhe para Si Israel e une-o a Si pelo dom da Aliança que deve ser guardada, vivida, celebrada no culto. Envolvendo-se na vida deste povo que se diferencia de todas as outras religiões vizinhas, Deus se faz como o Deus de Israel e o Santo de Israel (Cf. Is 20, 17-7; 41, 14-20).

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*Luiz Santinácio é escritor. Articulista na Revista Paróquias & Casas Religiosas

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