No bordado da misericórdia

Luiz Santinácio*



            Nos tempos mais próximos da chegada do Messias o judaísmo também conheceu o amor universal para com o estrangeiro, o pobre, o adversário, o inimigo (cf. Dt 10, 18s). Se aos Israelitas era ordenado amar ao próximo como a si mesmo (cf. Lv 19, 18) e a palavra próximo tem, inegavelmente, um sentido bastante restrito, o Senhor Jesus aos seus discípulos manda amar como Ele os amou (cf. Jo 15, 12-13).

            O próximo vem-a-ser todo ser humano independente de etnia, cor, nacionalidade, condição social, religião. No vislumbrar dos direitos inerentes ao Homem, todo homem enquanto Humanidade, a máxima amar o homem já se fazia embalar no coração de Deus. No homem é a coisa mais fácil e também, a mais difícil, contudo, unindo-se por assentimento de Fé á pessoa do Ressuscitado, tudo se pode (cf. Jo 15, 5).
            Sem Cristo pode-se trabalhar, ganhar dinheiro, progredir, abrir negócios, construir casas, prédios, mansões, palácios, aviões, navios, helicópteros. Tudo isso se consegue perfeitamente. Porém, ao invés de progredirem no amor, na construção de bens que cooperem para o bem-estar da Humanidade, os homens fazem guerras, destroem-se, odeiam-se, drogam-se e drogam, prostituem-se e prostituem, separam-se e separam às famílias, os casais dentro do ordenamento natural das coisas, crescem os ordenamentos não-naturais derrogando-se a ordem natural das coisas (cf. Lv 18, 32).
            A passagem do amor humano para a caridade cristã é radical e urgente. O amor é uma reta, união de dois pontos no espaço criatural enquanto a caridade é um triângulo. Transformar a reta dos amores em triângulo que tenha no vértice a presença do Deus e pai de todas as luzes e donde promana toda misericórdia é imprescindível. Tal presença no coração do homem e a aceitação das exigências inerentes à salvação é a sublimação do amor que não é amado, tornando verdadeira a caridade, como bem ensina Teresa de Ávila. E a caridade é o modo de se amar a Deus amando em nós, ou melhor, é Deus amando em nós (cf. 1Jo 4, 7). É Deus que vem a nós, como se bem nos ensina o Islã.
            Quando isso acontece é como o ressuscitar de um morto porque se exige o poder criador de YHVH (cf. Ez 36, 26) que faz passar da morte para a vida (cf. 1Jo 3, 14). O próprio CHRISTOS agindo sobrenaturalmente, divinamente...  Seria preciso repetir ao menos uma vez por dia: Ressurrexit sicut dixit. Pois nos confrontamos com a verdade primária da fé: Ecclesia Christi, sendo vista em primeira pessoa... é o milagre acontecendo.
            Milagre de amor, de um Deus-Amor que não é amado. Na pena do Doutor Melífluo, amor é uma inclinação da natureza e, por isso, o homem é levado a amar primeiro a si antes que ao próximo e a Deus. E ainda que os ame, ama-os com amor servil, interessado.
            Nada de artificial pode haver no amor. Em seu ponto de partida, no caminho do amor, encontra-se o coração deixado unicamente às suas forças naturais. No ponto de chegada haverá o coração capaz de amar divinamente.
            Os dois estados são evidentes no episódio de Francisco de Assis à vista do leproso. No primeiro instante, Francisco foge horrorizado, sob o impulso da natureza humana. Momentos depois, o Menor dos Menores, sob o impulso da caridade-dom abraça fraternalmente o leproso. Num piscar de olhos, o Espírito Santo purificou, iluminou e elevou o amor del Povorello di Assisi.
            O processo ordinário é lento e laborioso. Mister descer os doze degraus da piscina da humildade até converter o amor servil em caridade perfeita, como coloca a Regra Beneditina em seu n. 7. E, Bernardo de Claraval diz que seria indigna presunção dispor-se a esta leitura antes de ter sujeitado a carne com os exercícios ascéticos, submetendo-a ao espírito (Super Cantica I, 3).
            Exercícios ascéticos, password na Teologia Espiritual, significa:
1.      Exercício físico, esforço para aprender uma arte, por exemplo;
2.      Exercício mental, aprender uma ciência, uma língua;
3.      Exercício espiritual-moral, abandonar um vício, adquirir uma virtude.
Neste último aspecto, a ascese adentra na vida espiritual. Presente nas religiões, prescrita por Jesus nos Evangelhos, aconselhada pelos escritores dos tempos apostólicos, pelos Padres da Igreja e pelos Mestres da espiritualidade.
Para ser discípulo do Mestre de Nazareth é preciso negar-se a si mesmo (Mt 16, 24). O Apóstolo dos Gentios exorta os fieis de Colossas: “Mortificai, pois, vossos membros terrenos”; e, explicita: “fornicação, impureza, paixões, desejos maus e a cupidez, que é idolatria” (cf. Cl 3, 5). Paulo apresentava-se a si mesmo como exemplo de ascese: “Trato duramente o meu corpo e reduzo-o à servidão” (1Cor 9, 27). Chamava isso de pugilato espiritual (cf. 1Cor 9, 26). O exercício ascético forjou os atletas do espírito. Tal foi, por exemplo, São Policarpo de Esmirna, “atleta consumado”, segundo Santo Inácio de Antioquia (Carta de S. Inácio a S. Policarpo I, 1).
Objeto da ascese é tudo aquilo que comporta renúncia, abnegação, quer voluntária, quer involuntária e que não aceitamos em espírito de fé, a fim de purificar nossos afetos e costumes desordenados e alcançar a união com Deus. Eis, pois, o valor positivo da ascese. Abraão renunciou ao seu afeto natural de pai, contanto que fosse feito o que Deus pedira-lhe (cf. Gn 22, 15). Moisés renunciou às comodidades do Egito para acolher o plano de Deus (cf. Hb 11, 23-26). Abrangente a expressão do Salmista: “O teu amor vale mais que a vida” (Sl 63(62), 4).
O ser humano tem sua vida natural, mas Deus oferece-lhe outra melhor, ele não deve ter medo de perder àquela para ganhar esta, diz Àquele que vive com as chaves do Hades (cf. Mt 16, 25; Ap 4 – 5; 7, 9 – 17; 14, 1 – 5; 19, 11 – 16); nem de sacrificar os bens deste mundo em vista dos tesouros eternos. A fé no Homem que procede de Deus, no Kyrios, no Nazareno, fez de Paulo um pobre segundo o Evangelho e por amor do seu Senhor preferiu perder tudo para ganhar a Christo (cf. Fp 3, 8).
Enquanto a obra ascética for voluntária, nada a reclamar. Escolhe-se dormir no chão duro e sentir-se contente. Pode fazer dias de silêncio, esvaziar o guarda-roupa e dar aos pobres, podes... tudo bem, não reclamas porque são gestos de amor. Quantos escolheram a solidão do deserto no grande deserto da cidade ou fora dele, e não lhes era pesada! Teresa, a Pequena, não se ofereceu, num ímpeto de amor heróico, como vítima de reparação à misericórdia divina? (cf. História de uma Alma, p. 238).
A dificuldade se experimenta quando a provação vem de fora, causada por outros ou por agentes naturais. Aí, a escuridão é total. E começa-se: Por que? Por que? Por que? E não se vem à resposta, a não ser que... a luz do Alto ilumine o intelecto e se compreenda que atrás de tudo está Deus a permitir, como tentou explicar José aos irmãos em sentido último das calamidades que lhe causaram: “O mal que tínheis intenção de fazer-me, o desígnio de Deus o mudou em bem,  a fim de cumprir o que se realiza hoje: salvar a vida de um povo numeroso” (Gn 50, 20).
Exemplos as Letras Sagradas oferecem uma infinidade sem par. Assim Deus permitiu o martírio de Estêvão para o Evangelho da Salvação penetrar no mundo Greco-romano (cf. At 8).
Neste mundo só vemos, como a outra parte do bordado que a Misericórdia de Deus faz com que a sua Providência: um enredo de fins inextricável de cores caprichosas. Mas na luz da Glória, veremos o lado direito, a frente do bordado: uma obra de arte delicada, imensamente bela, onde cada fio e, cada cor tem a sua própria função.
A plenitude não é uma conseqüência necessária da evolução histórica, mas uma criação livre e gratuita da misericórdia divina. É o milagre acontecendo.
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*Luiz Santinácio é escritor, poeta nas horas mais vagas. 

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